
O túnel de parnaíba
Paisagem atual do Largo São Bento, com estátua de Frei Agostinho de Jesus, que viveu no antigo mosteiro beneditino entre 1645 e 1651
Ruas do Centro Histórico de Santana de Parnaíba ainda escondem partes da história da cidade que estão por serem descobertas
Há duas grandes histórias que povoam o imaginário dos parnaibanos. A primeira diz respeito à estadia de d. Pedro 1º na cidade. Conta-se que o imperador teria se encontrado com sua amante, a Marquesa de Santos, no sobrado onde hoje funciona a Secretaria de Cultura e Turismo. Mas, como atestam os historiadores, o monarca e sua amante não estiveram em tantas cidades como desejariam seus moradores.
A segunda história, porém, mais antiga, parece ser também mais verossímil. Por debaixo das ruas do Centro Histórico de Santana de Parnaíba, correria um túnel ligando a Igreja Matriz ao antigo, e hoje inexistente, Mosteiro de São Bento. Teria sido usado pelos religiosos em momentos onde, sair às ruas da vila, poderia ser perigoso, em vista dos ataques indígenas.
Embora tenha sido usado durante os séculos 17 e 18, o túnel beneditino remete aos primórdios da história de Santana de Parnaíba, assim como aos seus principais personagens e fundadores.
Canoas no rio Anhembi
Tibiriçá fora o principal cacique do planalto de Piratininga, quando os primeiros colonizadores chegaram à região e fundaram o povoado de São Paulo de Piratininga. Nasceu no final do século 15 e teve vários filhos, entre eles Beatris, com quem casara o português Lopo Dias. Entre os filhos do casal, nasceu na vila de São Vicente em 1552 Suzana Dias, futura matriarca de Santana de Parnaíba.
Quando jovem, Suzana Dias teve educação escassa, como era corrente entre as mulheres da época. Recebeu os ensinamentos jesuíticos, mas morreu sem saber ler ou escrever. Ainda assim, como mostra o historiador Paulo Florêncio da Silveira Camargo, em sua minuciosa “História de Santana de Parnaíba”, Suzana Dias destacou-se entre as matronas paulistas, tendo seu nome incluído em uma ata da Câmara de São Paulo de 1593, quando raramente um escrivão citava o nome de uma mulher. Casou-se com Manuel Fernandes Ramos, com quem teve sua prole de 17 filhos.
Português natural de Moura que desembarcara em São Vicente, Manuel Fernandes Ramos estivera entre os paulistas que, a partir da segunda metade do século 16, passaram a se aventurar no sertão desconhecido, seja em busca de mão-de-obra indígena para as lavouras e outros serviços, seja com o objetivo de ampliação de seus domínios. Silveira Camargo afirmou em seu livro que não era possível existir apenas uma vila no planalto, referindo-se a São Paulo. Dessa forma, outros vilarejos foram sendo fundados e começaram a desenvolver certa autonomia.
Acredita-se que em 1560, após percorrer oito léguas no rio Anhembi, hoje Tietê, Manuel Fernandes Ramos topou com uma cachoeira cuja queda impossibilitava a navegação. Iniciou então, próximo dali, uma fazenda e deu-lhe o nome usado pelos índios para alcunhar aquele trecho intransitável do rio: Parnaíba.
Data desta época a construção da primeira capela parnaibana. Devoto de Santo Antônio, o explorador mandou construir-lhe uma capela próxima ao rio. Era um edifício pequeno e coberto com folhas que teria uma existência curta, porém importante na centralização do núcleo urbano que se formava. Manuel Fernandes Ramos faleceu em 1589, quando então Suzana Dias mudou-se para a Fazenda e passou a morar em uma casa às margens do Tietê com seu segundo marido, Belchior da Costa.
Tibiriçá fora o principal cacique do planalto de Piratininga, quando os primeiros colonizadores chegaram à região e fundaram o povoado de São Paulo de Piratininga. Nasceu no final do século 15 e teve vários filhos, entre eles Beatris, com quem casara o português Lopo Dias. Entre os filhos do casal, nasceu na vila de São Vicente em 1552 Suzana Dias, futura matriarca de Santana de Parnaíba.
Quando jovem, Suzana Dias teve educação escassa, como era corrente entre as mulheres da época. Recebeu os ensinamentos jesuíticos, mas morreu sem saber ler ou escrever. Ainda assim, como mostra o historiador Paulo Florêncio da Silveira Camargo, em sua minuciosa “História de Santana de Parnaíba”, Suzana Dias destacou-se entre as matronas paulistas, tendo seu nome incluído em uma ata da Câmara de São Paulo de 1593, quando raramente um escrivão citava o nome de uma mulher. Casou-se com Manuel Fernandes Ramos, com quem teve sua prole de 17 filhos.
Português natural de Moura que desembarcara em São Vicente, Manuel Fernandes Ramos estivera entre os paulistas que, a partir da segunda metade do século 16, passaram a se aventurar no sertão desconhecido, seja em busca de mão-de-obra indígena para as lavouras e outros serviços, seja com o objetivo de ampliação de seus domínios. Silveira Camargo afirmou em seu livro que não era possível existir apenas uma vila no planalto, referindo-se a São Paulo. Dessa forma, outros vilarejos foram sendo fundados e começaram a desenvolver certa autonomia.
Acredita-se que em 1560, após percorrer oito léguas no rio Anhembi, hoje Tietê, Manuel Fernandes Ramos topou com uma cachoeira cuja queda impossibilitava a navegação. Iniciou então, próximo dali, uma fazenda e deu-lhe o nome usado pelos índios para alcunhar aquele trecho intransitável do rio: Parnaíba.
Data desta época a construção da primeira capela parnaibana. Devoto de Santo Antônio, o explorador mandou construir-lhe uma capela próxima ao rio. Era um edifício pequeno e coberto com folhas que teria uma existência curta, porém importante na centralização do núcleo urbano que se formava. Manuel Fernandes Ramos faleceu em 1589, quando então Suzana Dias mudou-se para a Fazenda e passou a morar em uma casa às margens do Tietê com seu segundo marido, Belchior da Costa.
Os bandeirantes de Parnaíba
Demolida, a capela foi reconstruída em 1610 por Suzana Dias e seu filho André Fernandes no mesmo local. Mantinha as paredes de pau-a-pique, mas era agora coberta com telhas e tinha como padroeira Santana.
André Fernandes substituiu o pai na chefia do povoado parnaibano. Viviam da agricultura e dependiam dos índios para desenvolvê-la, fato que levou à organização de diversas bandeiras à caça de índios e, ocasionalmente, rixas entre as indios e os bandeirantes.
Em 1624, a capela recebeu uma doação antecipada do testamento de Suzana Dias, que morreria dez anos depois, em 2 de setembro de 1634. Eram terras, casas, pertences e casais indígenas para os serviços da capela. Em troca, ficava obrigada a rezar duas missas anuais e realizar a festa dedicada a Santana.
No ano seguinte à doação, Parnaíba foi elevada a vila pelo capitão-mor e ouvidor Álvaro Luís do Vale. Tornava-se um importante centro de bandeirantes, de onde saíram e chegaram bandeiras de diversos cantos do país e da América Latina. Para Silveira Camargo, a vila de Parnaíba em nada perdia a vila de São Paulo: havia nobres, índios, mamelucos, pobres, uma câmara e uma igreja.
Essa, entretanto, sentia os dissabores do tempo. Entre 1639 e 1640, a proximidade com o rio fazia com que suas paredes fossem castigadas pela umidade. Além disso, sofria com as cheias do Tietê, tornando difícil o acesso. Sendo administrador da igreja, André Fernandes quis reedificá-la em um local mais alto. As obras da nova igreja tiveram início em 1646 no mesmo local onde atualmente está instalada a Igreja Matriz. Coberta de telhas e com paredes de taipa, constituía-se de cinco altares, sendo a capela-mor e o cruzeiro forrados.
Demolida, a capela foi reconstruída em 1610 por Suzana Dias e seu filho André Fernandes no mesmo local. Mantinha as paredes de pau-a-pique, mas era agora coberta com telhas e tinha como padroeira Santana.
André Fernandes substituiu o pai na chefia do povoado parnaibano. Viviam da agricultura e dependiam dos índios para desenvolvê-la, fato que levou à organização de diversas bandeiras à caça de índios e, ocasionalmente, rixas entre as indios e os bandeirantes.
Em 1624, a capela recebeu uma doação antecipada do testamento de Suzana Dias, que morreria dez anos depois, em 2 de setembro de 1634. Eram terras, casas, pertences e casais indígenas para os serviços da capela. Em troca, ficava obrigada a rezar duas missas anuais e realizar a festa dedicada a Santana.
No ano seguinte à doação, Parnaíba foi elevada a vila pelo capitão-mor e ouvidor Álvaro Luís do Vale. Tornava-se um importante centro de bandeirantes, de onde saíram e chegaram bandeiras de diversos cantos do país e da América Latina. Para Silveira Camargo, a vila de Parnaíba em nada perdia a vila de São Paulo: havia nobres, índios, mamelucos, pobres, uma câmara e uma igreja.
Essa, entretanto, sentia os dissabores do tempo. Entre 1639 e 1640, a proximidade com o rio fazia com que suas paredes fossem castigadas pela umidade. Além disso, sofria com as cheias do Tietê, tornando difícil o acesso. Sendo administrador da igreja, André Fernandes quis reedificá-la em um local mais alto. As obras da nova igreja tiveram início em 1646 no mesmo local onde atualmente está instalada a Igreja Matriz. Coberta de telhas e com paredes de taipa, constituía-se de cinco altares, sendo a capela-mor e o cruzeiro forrados.
A vinda dos beneditinos
André Fernandes pensava também em trazer novos sacerdotes para a vila. E com as relações entre bandeirantes e jesuítas nada amistosas na época, optou por chamar os beneditinos. Fizera então o convite, com a promessa de doações de terras para a construção da residência monacal.
Em 1642, esteve em Parnaíba o procurador da Ordem beneditina, a fim de verificar o local. Aceita a idéia, a escritura foi redigida no ano seguinte. Além das terras, o bandeirante comprometeu-se a entregar a nova capela paramentada e pertences para os ofícios divinos. Em contrapartida, a Ordem se comprometia a manter dois religiosos na vila. A localização exata do mosteiro dedicado a Nossa Senhora do Destêrro permanece, no entanto, uma grande interrogação para os historiadores. A hipótese mais provável é a de que ele fora construído em frente onde hoje é o largo São Bento.
Se for verídica a existência de um túnel ligando o mosteiro à Igreja Matriz, ele teria sido construído entre o final do século 17 e início do seguinte, como acredita Agacir Eleutério, historiadora do Centro de Memória e Integração Cultural de Santana de Parnaíba (Cemic). A incapacidade de estabelecer uma data exata se deve, entre outras coisas, à completa destruição do edifício beneditino. Silveira Camargo cita o relatório geral de 1836 do Marechal Daniel P. Müller, onde o militar afirma que na cidade havia um arruinado mosteiro. Em 1868, o edifício estava quase em ruínas e ameaçava desabar em 1887. A ameaça tornou-se concreta e hoje ele é apenas uma lembrança.
Quase o mesmo destino teve a igreja erguida por André Fernandes. Em 1812, a capela-mor ficou destruída e teve de ser reformada. Todo o edifício foi então ampliado em largura e comprimento, mas não passou dos 70 anos. Seria somente no final do século 19 que a Igreja Matriz ganharia sua forma atual.
André Fernandes pensava também em trazer novos sacerdotes para a vila. E com as relações entre bandeirantes e jesuítas nada amistosas na época, optou por chamar os beneditinos. Fizera então o convite, com a promessa de doações de terras para a construção da residência monacal.
Em 1642, esteve em Parnaíba o procurador da Ordem beneditina, a fim de verificar o local. Aceita a idéia, a escritura foi redigida no ano seguinte. Além das terras, o bandeirante comprometeu-se a entregar a nova capela paramentada e pertences para os ofícios divinos. Em contrapartida, a Ordem se comprometia a manter dois religiosos na vila. A localização exata do mosteiro dedicado a Nossa Senhora do Destêrro permanece, no entanto, uma grande interrogação para os historiadores. A hipótese mais provável é a de que ele fora construído em frente onde hoje é o largo São Bento.
Se for verídica a existência de um túnel ligando o mosteiro à Igreja Matriz, ele teria sido construído entre o final do século 17 e início do seguinte, como acredita Agacir Eleutério, historiadora do Centro de Memória e Integração Cultural de Santana de Parnaíba (Cemic). A incapacidade de estabelecer uma data exata se deve, entre outras coisas, à completa destruição do edifício beneditino. Silveira Camargo cita o relatório geral de 1836 do Marechal Daniel P. Müller, onde o militar afirma que na cidade havia um arruinado mosteiro. Em 1868, o edifício estava quase em ruínas e ameaçava desabar em 1887. A ameaça tornou-se concreta e hoje ele é apenas uma lembrança.
Quase o mesmo destino teve a igreja erguida por André Fernandes. Em 1812, a capela-mor ficou destruída e teve de ser reformada. Todo o edifício foi então ampliado em largura e comprimento, mas não passou dos 70 anos. Seria somente no final do século 19 que a Igreja Matriz ganharia sua forma atual.
Um modernista em Parnaíba
As obras da igreja atual coincidiram com a posse do padre Miguel Mauro, em 27 de novembro de 1881, responsável pela direção dos trabalhos. A planta é de autoria de Carlos Daniel Rath, datada de 1882. Segundo Agacir Eleutério, não se pode estabelecer o ano exato do término da construção, mas provavelmente dez anos depois de iniciada.
O novo prédio despertaria opiniões distintas. Silveira Camargo cita texto escrito por Estevão Bourroul, co-fundador do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 1887: “A matriz de Parnaíba, embora não perfeitamente concluída, é uma das mais belas igrejas da província”. O historiador Afonso Taunay, em um artigo publicado no jornal Correio Paulistano em 1923, fora mais modesto: “A matriz, ampla, sobremodo acolhedora, não tem característicos artísticos externos ou internos, mas é acolhedora e própria à meditação piedosa”. Já o escritor modernista Mário de Andrade não foi nada moderado. Em carta enviada a Rodrigo Mello F. de Andrade, declarou que “a igreja é importantíssima como construção, mas feia como o diabo”.
A igreja de 1882 se sobrepôs à igreja de André Fernandes e qualquer pista aparente da entrada do túnel desapareceu. Manuel Barbosa, proprietário de uma pousada no Centro Histórico, afirma que o túnel seguia a atual rua Suzana Dias, subia pela estreita rua Nove de Julho e seguia até a sacristia da igreja. A outra entrada, prossegue ele, ficaria no jardim da casa de número 50 do largo São Bento.
O pedreiro João Jesus da Silva trabalha na casa, que futuramente será transformada em restaurante. Conta que aos quatro anos de idade, sua esposa veio morar em uma casa onde hoje é o jardim da casa. Próximo ao muro, havia um alçapão que dava acesso ao túnel.
São histórias como essa que Agacir Eleutério coleciona em sua memória desde que começou a trabalhar na prefeitura, em 1997. No entanto, como historiadora, sabe da importância de um estudo arqueológico para verificar a existência do túnel. Um ano depois, entrou em contato com a equipe do Museu Paulista, liderada pela professora e arqueóloga Margarida Andreatta. Segundo Agacir, a arqueóloga esteve na cidade, disse ser possível existir o túnel, mas que isto exigiria um trabalho minucioso. Para que não fosse necessário escavar as ruas, eles utilizariam um equipamento de ultra-sonografia, que percorreria seu possível trajeto. Porém, o projeto não chegou a ser realizado.
Existem ainda indícios que ajudam a sustentar a existência do túnel. Em alguns momentos da história brasileira, o convívio entre colonizadores e índios não foi nada pacífico, e a vila de Parnaíba não estava isenta do problema. Agacir identificou ligações entre as casas mais antigas que deveria servir de alternativa para as ruas. “Você percebe que em alguns momentos, as pessoas que viviam na vila não tinham condição ou eram impedidas por algum motivo de sair à rua. Então elas se comunicavam por dentro das casas”. O túnel, portanto, teria a mesma finalidade para os religiosos.
O pesquisador Dalton Sala, historiador da arte e especialista em arte brasileira, afirma ser possível a existência do túnel em Parnaíba, pois há muitos exemplos de obras semelhantes no Brasil, como a construída na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, em Salvador. Para o historiador, os túneis eram usados para fuga em caso de cerco. “No caso dos baianos, os sitiantes eram holandeses. Em Parnaíba, se o túnel existia, era um recurso não necessariamente contra uma ameaça distinta. Mas é necessário lembrar que, por volta de 1560, teve início uma grande revolta indígena, que culminou com cerco da vila de São Paulo”, esclarece Sala. “Mesmo algumas décadas depois, esse temor persistia, principalmente nessas vilas na boca do sertão, como Parnaíba”.
Outro indício surgiu no final de março deste ano, em uma matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Nos fundos de uma marcenaria no Centro Histórico de Santos, foi descoberto um antigo túnel, com três metros de profundidade e medindo 1,10 metro de largura e 1,90 de altura. O historiador consultado pela matéria afirmou que a descoberta pode confirmar uma antiga história santista de uma ligação subterrânea entre a Igreja do Valongo e o Mosteiro de São Bento, a mesma Ordem que aportou em Parnaíba no século 17.
Mas o subsolo de Santana de Parnaíba permanece ainda intacto. De acordo com Agacir, até hoje não foi feita nenhuma escavação na cidade, o que permitiria não apenas comprovar a existência do túnel, como também conhecer outras partes da história da cidade que permanecem incertas: “a história de Parnaíba, antes da chegada do colonizador, ninguém conhece. O que sabe é o geral”, explica Agacir.
As obras da igreja atual coincidiram com a posse do padre Miguel Mauro, em 27 de novembro de 1881, responsável pela direção dos trabalhos. A planta é de autoria de Carlos Daniel Rath, datada de 1882. Segundo Agacir Eleutério, não se pode estabelecer o ano exato do término da construção, mas provavelmente dez anos depois de iniciada.
O novo prédio despertaria opiniões distintas. Silveira Camargo cita texto escrito por Estevão Bourroul, co-fundador do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 1887: “A matriz de Parnaíba, embora não perfeitamente concluída, é uma das mais belas igrejas da província”. O historiador Afonso Taunay, em um artigo publicado no jornal Correio Paulistano em 1923, fora mais modesto: “A matriz, ampla, sobremodo acolhedora, não tem característicos artísticos externos ou internos, mas é acolhedora e própria à meditação piedosa”. Já o escritor modernista Mário de Andrade não foi nada moderado. Em carta enviada a Rodrigo Mello F. de Andrade, declarou que “a igreja é importantíssima como construção, mas feia como o diabo”.
A igreja de 1882 se sobrepôs à igreja de André Fernandes e qualquer pista aparente da entrada do túnel desapareceu. Manuel Barbosa, proprietário de uma pousada no Centro Histórico, afirma que o túnel seguia a atual rua Suzana Dias, subia pela estreita rua Nove de Julho e seguia até a sacristia da igreja. A outra entrada, prossegue ele, ficaria no jardim da casa de número 50 do largo São Bento.
O pedreiro João Jesus da Silva trabalha na casa, que futuramente será transformada em restaurante. Conta que aos quatro anos de idade, sua esposa veio morar em uma casa onde hoje é o jardim da casa. Próximo ao muro, havia um alçapão que dava acesso ao túnel.
São histórias como essa que Agacir Eleutério coleciona em sua memória desde que começou a trabalhar na prefeitura, em 1997. No entanto, como historiadora, sabe da importância de um estudo arqueológico para verificar a existência do túnel. Um ano depois, entrou em contato com a equipe do Museu Paulista, liderada pela professora e arqueóloga Margarida Andreatta. Segundo Agacir, a arqueóloga esteve na cidade, disse ser possível existir o túnel, mas que isto exigiria um trabalho minucioso. Para que não fosse necessário escavar as ruas, eles utilizariam um equipamento de ultra-sonografia, que percorreria seu possível trajeto. Porém, o projeto não chegou a ser realizado.
Existem ainda indícios que ajudam a sustentar a existência do túnel. Em alguns momentos da história brasileira, o convívio entre colonizadores e índios não foi nada pacífico, e a vila de Parnaíba não estava isenta do problema. Agacir identificou ligações entre as casas mais antigas que deveria servir de alternativa para as ruas. “Você percebe que em alguns momentos, as pessoas que viviam na vila não tinham condição ou eram impedidas por algum motivo de sair à rua. Então elas se comunicavam por dentro das casas”. O túnel, portanto, teria a mesma finalidade para os religiosos.
O pesquisador Dalton Sala, historiador da arte e especialista em arte brasileira, afirma ser possível a existência do túnel em Parnaíba, pois há muitos exemplos de obras semelhantes no Brasil, como a construída na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, em Salvador. Para o historiador, os túneis eram usados para fuga em caso de cerco. “No caso dos baianos, os sitiantes eram holandeses. Em Parnaíba, se o túnel existia, era um recurso não necessariamente contra uma ameaça distinta. Mas é necessário lembrar que, por volta de 1560, teve início uma grande revolta indígena, que culminou com cerco da vila de São Paulo”, esclarece Sala. “Mesmo algumas décadas depois, esse temor persistia, principalmente nessas vilas na boca do sertão, como Parnaíba”.
Outro indício surgiu no final de março deste ano, em uma matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Nos fundos de uma marcenaria no Centro Histórico de Santos, foi descoberto um antigo túnel, com três metros de profundidade e medindo 1,10 metro de largura e 1,90 de altura. O historiador consultado pela matéria afirmou que a descoberta pode confirmar uma antiga história santista de uma ligação subterrânea entre a Igreja do Valongo e o Mosteiro de São Bento, a mesma Ordem que aportou em Parnaíba no século 17.
Mas o subsolo de Santana de Parnaíba permanece ainda intacto. De acordo com Agacir, até hoje não foi feita nenhuma escavação na cidade, o que permitiria não apenas comprovar a existência do túnel, como também conhecer outras partes da história da cidade que permanecem incertas: “a história de Parnaíba, antes da chegada do colonizador, ninguém conhece. O que sabe é o geral”, explica Agacir.
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